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COMO NASCEU O PT?

COMO NASCEU O PT?

Faz muito tempo que os trabalhadores brasileiros lutam para criar seus próprios partidos: o primeiro partido operário brasileiro foi fundado em 1.° de fevereiro de 1890, no Rio de Janeiro, por 120 trabalhadores socialistas liderados pelo tipógrafo Luiz França e Silva. A quase totalidade dos partidos de trabalhadores formados nas primeiras décadas do século XX teve vida curta; a exceção é o Partido Comunista Brasileiro, que conseguiu resistir desde 1922 até hoje, a uma longa história de ilegalidade e repressão.

As classes dominantes brasileiras, elitistas e antidemocráticas, sempre procuraram impedir a livre organização partidária do operariado; e a ditadura instalada em 1964 reprimiu até mesmo o PTB, um partido de massas trabalhadoras, mas dirigido por setores burgueses e pequeno-burgueses ou por membros do aparelho de Estado. Na situação política atual de retomada das lutas sindicais, surgiu a proposta do PT — Partido dos Trabalhadores. Nossos entrevistados opinam aqui sobre as razões e a história do surgimento do PT.

As perguntas: Como você acha que surgiu a idéia do PT? Quais as razões do seu surgimento?

RONALDO CABRAL MAGALHÃES — Eu acho que o PT é um partido que surgiu… porque nós, os trabalhadores nunca tivemos representação política partidária. Então o PT surgiu nesse anseio de levar maior representação dos trabalhadores ao Congresso Nacional. No meu entender, este foi o maior anseio do PT. Para que nós tivéssemos um respaldo político partidário. Mas eu acho que a proposta do PT foi pessimamente colocada. Não foi discutida amplamente, jogaram no ar, e deixaram que muitos grupos de oportunistas entrassem, para tirar proveito. Se fosse bem colocado o PT, seria um partido e tanto … porque as intenções foram as melhores possíveis, mas lamentavelmente foi pessimamente colocada para os trabalhadores e deixamos perder esta grande oportunidade.

Ronaldo Petroleiro: Se a sua proposta fosse bem colocada, o PT seria um partido e tanto…

WAGNER BENEVIDES — Na minha opinião, a idéia do PT vem de uma frustração com o MDB. Qualquer um que tentasse, antes de 1978, entrar com alguma coisa nova para o MDB, fatalmente seria expurgado dele, porque o MDB era controlado pelo Tancredo Neves. Tinha dois irmãos aqui em Minas, que são uma máfia, um comandando a ARENA e outro o MDB, os irmãos Ferraz. Doce ilusão dos companheiros que hoje estão achando que vão ter espaço. Eu acho que o espaço vai continuar o mesmo… porque em Minas, por exemplo, o pessoal até agora não sabe quem é que comanda o PMDB.

Porque aqui em Minas é o único lugar do Brasil que ainda tem PSD, tem UDN, PR, então aqui o interesse maior é pela sigla anterior, passada, e não pelo presente. Eu acho que é o “feijão e o sonho”. Tem um montão de múmias aí, que ainda andam na política.

O MDB como partido de oposição nunca teve um trabalho sério. Pelo contrário, ele avalizou duas vezes a ditadura. Primeiro quando o Ulisses Guimarães foi candidato a presidente da República, ele avalizou a eleição do Geisel. Quando o MDB colocou aquele general aí, o Euler Bentes, também como candidato, avalizou a ditadura mais uma vez. Na nossa opinião, o MDB não tem um trabalho concreto. Existe um trabalho concreto, de alguns parlamentares. Mas na cassação do Alencar Furtado, por exemplo, o próprio MDB se sentiu bem, porque ele fatalmente ia passar a assumir uma liderança na frente do Ulisses Guimarães. Se a gente for fazer uma avaliação correta, a anistia que ele levantou, realmente não é uma bandeira do MDB, essa bandeira foi levantada pelos companheiros do PCB. Outra coisa, o movimento do custo de vida em São Paulo, foi levantado por um grupo de companheiros também de outras organizações que não são reconhecidas, foi também o MDB a reboque.

O espaço para o movimento popular, dentro do PMDB, que dizem que está sendo aberto, você sabe que é mentira. Em todos os Estados você já sabe quem vai ser candidato a governador pelo PMDB. Então você indica tudo na mão … agora, perguntaram para o povo, perguntaram para o Zé ali? O Zé por exemplo defende o PMDB, e este sindicato aqui é bom por isso, porque todo mundo tem direito de defender o que quiser. O Zé tem direito de defender o PMDB, porque ele é trabalhador, até o dia em que ele chegar à realidade que eu cheguei … eu também já defendi o PTB e o MDB, até que chegou a hora e eu falei: não, agora chega. Eu estou igual a mulher de malandro, né? Eu estou apanhando e não tomo vergonha na cara … Então é isso, a gente discute, mas se a gente fizer uma pesquisa aqui dentro, só com os companheiros que estão aqui … eu acredito que a maioria é por uma alternativa própria dos trabalhadores … o partido próprio deles. E não é porque eu defendo não, é porque tá chegando a hora do pessoal dizer que é isso mesmo … não existe espaço no MDB, nunca existiu é a classe trabalhadora organizada. E olha que eu não falo de classe operária, porque eu não sou sectário não, porque a classe operária não tem força de derrubar governo nenhum, mas a classe trabalhadora toda tem, porque a classe trabalhadora é a união dos trabalhadores com os operários e existe uma diferença entre operário e trabalhador. Trabalhador é todo aquele sujeito que vende a sua força de trabalho. Às vezes não sai nada pronto da mão dele. Do operário, obrigatoriamente alguma coisa sai pronta da mão dele. A classe trabalhadora, ela pega desde os profissionais liberais até o sujeito que é varredor de rua. Nunca um senador como o Teotônio Vilela, um sujeito que passou 15 anos na ARENA, como uma figura apagada, vem para o MDB e é autêntico… está no PMDB também como autêntico… Acontece que ele tem 10 mil trabalhadores lá no engenho dele, que a maioria não ganha nem um salário mínimo… Ora, na hora que houve uma greve do pessoal de Pernambuco, do pessoal das usinas, a primeira coisa que ele fez foi telefonar para Alagoas para ver se a usina dele não tinha entrado em greve também… Então tem que acabar com esta frescura, sabe, trabalhador é trabalhador e patrão é patrão, vamos separar o joio do trigo…

SEBASTIÃO ATAlDE DE MELLO — Em 1977, quando ninguém falava em PT, eu troquei idéias com os companheiros que hoje formam a sua cúpula. Como nós, enquanto dirigentes sindicais, não poderíamos participar politicamente, eu convidei-os a participar de uma associação que se chamaria “Associação dos Dirigentes Sindicais”. Seria uma forma de, ao invés de nós irmos aos políticos, os políticos virem até nós e, daí, nós passarmos a exigir. Porque, naquela oportunidade, e isto inclusive está registrado na imprensa, eu dizia que a classe trabalhadora tinha perdido a confiança na classe política. E realmente perdeu: o trabalhador de hoje não está iludido com nenhum político, principalmente políticos profissionais. Mas, depois de eu divulgar isso aí pela imprensa, os companheiros, não sei porque razão, desistiram da idéia. E ainda, em 1979, eu fui surpreendido quando nós fizemos o nosso primeiro encontro nacional de dirigentes sindicais. Em Gragoatá e em Niterói, os companheiros de São Paulo vieram com a idéia fixa em um grupo já bem organizado, para tirar aqui, do Rio, uma resolução dos dirigentes sindicais de formar o PT. Eu briguei contra isso, e eles não conseguiram aprovar. Naquela oportunidade, eles queriam um PT fechado: só entrava operário. E disso aí a gente não pode participar, porque um partido político não pode fechar as portas. Tem que ter todas as camadas, desde que estas camadas se identifiquem com o pensamento da classe trabalhadora. E, para minha surpresa, hoje eu vejo o PT com o senador Santillo, com os parlamentares que são da burguesia, e eu estou vendo que os companheiros parece que queriam era aparecer como dirigentes políticos, e não tinham uma ideologia formada. O que eles queriam era um lugar ao sol e quando houver eleições esta máscara vai cair. Aí eu digo que vai haver a degeneração do PT, como houve do PTB em 1945.

Sebastião: Desde 1977, quando ninguém falava em PT, eu propus uma “associação de dirigentes sindicais”.

JOAQUIM ARNALDO DE ALBUQUERQUE — A proposta do PT surgiu trazida por lideranças sindicais, que tinham mostrado na luta realmente uma atuação em defesa dos interesses dos trabalhadores. E aí tem muita gente enganada, quando diz que o PT é do Lula. Há muito engano deste pessoal. O Lula teve a coragem, com os companheiros, de lançar a proposta de um partido político para, vamos dizer, facilitar a luta dos trabalhadores. Como os sindicatos são atrelados ao Ministério do Trabalho, não têm liberdade, não têm autonomia, não têm nada, devia-se constituir um partido legalmente, e este partido poderia dar cobertura a estas próprias lutas nascidas dos trabalhadores. Os trabalhadores participando, é lógico que ele não vai recusar nenhuma de suas lutas, e estar na frente, junto com eles. Por isso a necessidade do PT, quando foi lançada, eu acho que, de início, foi bem aceita pelos trabalhadores. Mas, é lógico que depois, a própria máquina de divulgação caiu em cima do PT, querendo colocá-lo como mais um partido político, e isso vai dificultar um pouco mais a sua constituição. Vai dificultar, mas isso não vai impedir, porque eu acredito na constituição do PT. Porque é muito mais fácil convidar os companheiros, vamos discutir, vamos sentar para discutir política, para construir a nossa organização política, do que convidar o companheiro para ir para o MDB, o PTB. Principalmente o PTB, que já vem de uma história em que os trabalhadores nunca participaram.

IGNÁCIO HERNANDEZ — Em Minas, primeiro se escutava os rumores sobre o PT vindos de São Paulo, do ABC, da greve de 1979. Daí começaram a surgir as figuras do PT na imprensa, e ficou essa idéia durante vários meses. Depois tivemos diversos debates, na Cidade Industrial como em Belo Horizonte, até que em meados do ano passado fizemos uma reunião geral de sindicalistas daqui. Propusemos então uma reunião não de cúpula mas de base: fizemos, e me parece que demos ali os passos fundamentais; não era tão grande nem tão significativa para a classe operária, mas encheu o salão do sindicato, umas 400 à 500 pessoas que aderiram ao PT e aceitaram a idéia de se fazer uma comissão eleita, para sair um pouco daquela coisa de cúpula dos sindicalistas, já que metade deles não estavam aderindo à proposta. Depois se fez uma comissão aberta Pró-PT, numa reunião regional com diversos representantes das cidades do interior. Na comissão escolhida tem muito poucos dirigentes sindicais, mas são 21 pessoas bastante representativas, a maioria é operário.

JOAQUIM DOS SANTOS ANDRADE — Nós, já antes de 1978, é necessário que se diga, antes de 1978 e após o congresso de Lins, nós fizemos inúmeras reuniões visando a idéia do PT, aprimorando a idéia e tentando levar, na prática, condições que nos permitissem, dentro de um pluripartidarismo, criar um Partido dos Trabalhadores; e tentar dinamizar o partido, aprofundar o partido e enraizar o partido nas bases, para fazer com que ele realmente cumprisse a sua função, e desse cumprimento aos princípios transcritos no seu programa.

Bom, veio a possibilidade do pluripartidarismo; possibilidade esta que veio através de um golpe, porque o que o governo deveria ter permitido era o surgimento de outros partidos, e não a extinção dos partidos. Com a possibilidade de surgimento desses novos partidos, nasceu aquilo que era temor de muitos dirigentes sindicais, que era a interferência das facções políticas na formação do partido. E a partir daí, embora nós fôssemos os autores, eu digo nós, uma série de dirigentes sindicais, uns 20 ou 30 dirigentes que já haviam se reunido várias vezes, nós não pudemos chegar à prática, porque alguns se arvoraram em donos dessa idéia; e passaram a fazer um estreitamento; então ficou um partido que a gente não sabe se é partido ou sindicato, e o PT acabou não tendo uma participação maior dos trabalhadores, porque formou-se com o conselho de algumas facções burguesas, que vieram com aquela idéia de “sindicato autêntico” e de “sindicalismo pelego”. E alguns sindicalistas, que se auto-denominam de autênticos, passaram a fazer este exclusivismo, e a estreitar o partido, a estreitar a possibilidade de participação e deram uma tonalidade excessivamente ideológica ao embrião do partido, não permitindo a participação da maioria dos líderes sindicais.

Acabou com algumas facções, alguns pequenos agrupamentos políticos, fazendo a tal da patrulha ideológica; e a grande maioria dos dirigentes sindicais abandonou a idéia.

DÍDIMO PAIVA — Bom, a idéia do PT, podia ser partido popular, partido democrático, podia ser partido operário, essa idéia, eu ouvi do Arlindo José Ramos do Sindicato dos Bancários, afastado do sindicato, recentemente restituído a seu cargo. Foi o primeiro companheiro que levantou, ele é muito moderado, ligado a uma linha cristã, mas um dirigente muito sério, muito cuidadoso, ele achava o seguinte: que nós precisávamos de cuidar de organizar o trabalhador para um partido, porque o trabalhador no Brasil jamais será libertado se não tiver o seu instrumento de expressão. Posteriormente, essa idéia se estendeu quando começaram essas reuniões inter-sindicais, para discutir convênios de INPS, começamos a fazer as reuniões que eram proibidas na época, como são até hoje, chegou-se à idéia de que o trabalhador precisava de um partido de sua representação. Porque o trabalhador brasileiro é como escravo, houve realmente a libertação dos escravos, com aquele ato, da Lei Áurea, mas, na verdade, o trabalhador hoje é mais escravo do que o negro naquele tempo, como a política é elitista, de cima para baixo, o trabalhador nunca pode se organizar. As experiências de partido comunista, socialista ou qualquer tipo de trabalhismo, elas foram desviadas do seu verdadeiro sentido.

PAULO SKROMOV DE MATTOS — Os trabalhadores não têm, e nunca tiveram organização partidária. Eventualmente houve, no passado, tentativas heróicas de se construir partidos de trabalhadores. Agora, a recente proposta de PT, surgiu numa reunião que fizemos em São Bernardo do Campo entre doze presidentes de sindicato, dos quais apenas quatro apoiaram a idéia. Esses quatro eram: o Lula, o Jacó, o Cicotti e eu. E os outros oito que não apoiaram, vou tentar lembrar para dizer: Hugo Peres, Ênio, Raimundo, Arnaldo (de Santos), João Carlos (Petroquímica de Caxias,) deve ter mais algum. Não me lembro.

O PT é uma proposta muito simples. É original, não uma idéia própria da sociedade de classes. É a idéia de um partido da classe explorada — dos trabalhadores da cidade e do campo. O PT significa a passagem da consciência dos trabalhadores, de uma massa amorfa, massa de manobra dos pequenos burgueses, para uma situação em que eles próprios constróem a sua instância política, sua própria agremiação militante, não somente eleitoral.

Skromov: O PT surgiu de uma reunião em São Bernardo, entre doze presidentes de sindicatos. Quatro deles apoiaram: o Lula, o Jacó, o Cicotti e eu.

JOSÉ TIMÓTEO DA SILVA GUEDES — Olha, o problema é o seguinte: todo mundo que tem um pouquinho de atuação política, quer ser alguma coisa na vida, dentro desta república brasileira. Isso tem que ser considerado. As pessoas querem sair nas capas de jornais, as pessoas têm vaidades, as pessoas felizmente têm vocação para o poder. Então a primeira coisa que se precisa ver nesse monte de opções partidárias, é que as pessoas querem aparecer nos jornais, a primeira coisa é isso. E eles não estão errados não, também quero aparecer nos jornais; e se amanhã eu quiser bancar o diferente, ter espaço aberto em todos os jornais do País, vou dizer que estou organizando o neo-fascista, vou fazer uma comissão provisória, e aí vou dar entrevista em tudo quanto é jornal, como a dona Ivete Vargas está fazendo. Enfim, vários desses arranjos partidários começam dessas pessoas que querem aparecer, e então bolam uma coisa nova, que não é muito nova. Mas em 15 anos de ditadura as pessoas perdem a memória, perdem a noção de vida política nacional, e então o nego começa a pintar por aí com novidade: “Não, eu sou a comissão provisória, eu sou o articulador”…

ANTÔNIO AUGUSTO — No Brasil, houve dificuldades de uma atuação de massa da esquerda. A esquerda brasileira não teve condições objetivas para levar um trabalho de massa e nem condições subjetivas para entender esse trabalho. E não existindo isso daí, os grupos de esquerda nem podem reclamar para si o movimento de São Bernardo, por exemplo. Então, quando os trabalhadores já começam a fazer uma greve, e começam a ter um choque com o Estado e com todo o poder de segurança do Estado, eles passam por um processo de aprendizado ou de sentimento de avançar mais.

Entretanto, não existiu em 1978 e 1979, no Brasil, com representatividade na massa, nenhum partido de esquerda que fizesse a análise da diferença entre o movimento econômico e o político. Por outro lado, houve a euforia do 15 de novembro de 1978, dentro da qual praticamente o pessoal achou (talvez num ápice de um pensamento bem ingênuo) que fosse possível eleger o Euler Bentes, e que fosse possível ter maioria do MDB no Congresso.

Veio a frustração, que ocorreu porque houve, de quase toda a sociedade, um apoio ao MDB. Houve um engajamento até mesmo de direções sindicais na luta pela eleição; e a gente nota que com a derrota, ou melhor, não com a derrota mas por não se ter conseguido a maioria do MDB no Congresso, por não se ter conseguido questionar o sistema de escolha do próprio presidente da república, aquilo gerou uma frustração muito grande nas direções sindicais que estavam preocupadas em como escapar naquele momento do arrocho econômico. Daí a proposta do Partido dos Trabalhadores, que é, para mim, uma proposta de desafio à esquerda: é uma proposta de formação de um partido de massa com uma concepção de luta de massa, isso enquanto uma parte da esquerda teve durante um certo tempo, depois de 1964, uma concepção de guerrilha, uma concepção de se dar uma força maior ao trabalho rural; e hoje, as massas urbanas pedem uma direção. E a esquerda não conseguiu fazer sua autocrítica (pode ter feito uma autocrítica interna mas não teve condições de passar isso para as massas). Aí surgiu um Partido dos Trabalhadores, que eu acho difuso, pois não tem uma concepção marxista e nem uma concepção burguesa — ele ainda está muito indefinido — mas tem uma coisa concreta: é um partido de base sindical; tem muito de caráter trabalhista num primeiro momento. Agora, sua implantação é que vai mostrar se existe possibilidade dele se definir e de como ele vai se definir.

Osmar: A partir de sua prática, os companheiros descobriram: precisamos meter a colher nas decisões políticas.

OSMAR MENDONÇA — A idéia da necessidade do Partido dos Trabalhadores surgiu fundamentalmente ligada à evolução das lutas operárias. Eu achei que a partir do momento em que a classe operária começou a ter uma luta mais ampla, mais organizada, ficou claro para os trabalhadores que eles precisavam de fato terem uma expressão política. A nossa greve no caso, como as outras também, em Belo Horizonte, mostraram claramente o seguinte: quem é que domina o País; os trabalhadores de São Bernardo do Campo perceberam, claramente, que quem domina são as multinacionais. Perceberam quem é que defende internamente as multinacionais; a polícia foi lá bater nos operários, para defender a empresa. Perceberam também a sustentação das multinacionais aqui no terreno da lei, na hora em que a greve é decretada ilegal, decretada pelo governo. Perceberam também como o governo está comprometido com essas empresas, com o grande capital nacional e estrangeiro, no momento em que decreta intervenção no sindicato. Então, a classe operária percebeu tudo isso, através da sua própria experiência, e sentiu que aquele terreno em que ela estava era insuficiente para ganhar a luta.

Nesse processo ela percebeu quem são seus amigos; não foi através de uma visão teórica, mas através da prática. Quando começaram a fazer o cerco em cima da gente, nós tivemos o auxílio da igreja, nós tivemos o apoio dos professores, artistas, jornalistas. Então a classe operária percebeu também que ela na sociedade tem muitos amigos e viu, no entanto, do ponto de vista das decisões políticas, que apesar de ser uma grande força, ela não conseguia interferir. A partir desse conhecimento prático, os companheiros começaram a dizer: Nós temos que ter condições é de meter a colher no processo de decisão política. É daí que surge esse sentimento mais ou menos amplo hoje: da necessidade de se criar o Partido dos Trabalhadores.

IVAN MARTINS VIEIRA — Tem um fenômeno muito interessante com relação ao PT. Entre a vanguarda e a massa, existe uma coisa que a gente poderia chamar de “massa avançada”, e é interessante notar que o Partido dos Trabalhadores, o PT, exerce uma certa atração para esta parcela. E isto é devido ao próprio desgaste dos partidos políticos tradicionais, da política desse país… e ao próprio nome do partido. É um “Partido dos Trabalhadores”… então aparece como algo de novo… Tudo o que passou passou, não teve nada que prestasse, não teve nenhum partido, e tal. Quer dizer, a falta de liberdade de expressão, a censura à imprensa, outras correntes de opinião não podendo colocar a sua visão para a massa também, então o PT aparece às vezes como uma solução. Mas o que acontece aqui no Rio de Janeiro? Eu tenho o depoimento de certos companheiros aqui, que se estimularam por um cartaz ou por uma propaganda, e compareceram… um número muito pequeno, a uma atividade do PT e se decepcionaram … Ao chegarem lá não era nada daquilo, eles também notaram uma visão muito sindicalista… “vai ser o partido que vai lutar pelos nossos salários, não vai ter patrão, e tal…”

Eu particularmente acho que foi um equívoco. A proposta do PT surgiu depois do ascenso do movimento sindical. E me parece que o grande equívoco, como eu tinha dito antes, é que ele jogou uma proposta como se fosse uma Central Única dos Trabalhadores… Parece que, na luta sindical, os companheiros que vieram propor o PT perceberam que era importante alguma ligação entre os trabalhadores, de solidariedade etc. E daí surgiu a idéia do PT. Eles tinham também um descontentamento com os partidos tradicionais, com o MDB; a falta de compreensão do caráter do MDB deixou-os desiludidos, porque muitos desses dirigentes que estão puxando o PT, estão desiludidos; dizendo assim: “Poxa, nós fomos à Brasília, e na hora da votação da reforma da CLT, vinte deputados do MDB não estavam no local”. Mas é claro que não estavam no local. Eles estavam no MDB porque se tratava de uma frente democrática. Não concordam com os interesses dos trabalhadores. Têm a ideologia do patrão, embora sejam liberais. Quer dizer, eles ficaram decepcionados porque o MDB tinha uma bancada de, digamos, 220 membros, e nas questões que interessavam para os trabalhadores, só votavam 150 ou 170… Na realidade, quer dizer, aquele número de votos seria sempre o mesmo, mesmo se houvesse outros partidos. É que a gente ainda não está com uma acumulação de forças capaz de, no parlamento, fazer prevalecer, quantitativamente, um número de deputados maior a favor dos trabalhadores.

JACÓ BITTAR — Sentimos a necessidade da formação de um canal de expressão do trabalhador, mesmo reconhecendo a existência de um Partido Comunista, que se diz partido dos trabalhadores. Eu até acredito que o PC seja, mas eu acho que houve uma campanha muito grande por parte do capitalismo contra o Partido Comunista, e que ele não tem aceitabilidade por parte dos operários como está acontecendo com o Partido dos Trabalhadores. Eu acho que a curto prazo, e até a médio prazo, seria muito mais fácil trabalhar para se formar uma consciência política diante daquilo que está tendo aceitabilidade, do que tentar engrossar um partido que foi sempre xingado, como… por que não dizer, muitos ainda acreditam que na Rússia se come criancinha… Então é melhor você abrir um espaço para a atuação e para a participação política dos trabalhadores, mesmo que não seja algo tão definido, mas que seja canal de expressão como está sendo o PT.

Jacó: Houve uma campanha muito grande contra o PC. Muitos ainda acreditam que na Rússia se come criancinha.

 

 

Ricardo Maranhão – Os Trabalhadores e os Partidos
Pesquisa: Elizabeth Balbachevsky
1981 – Editora Semente

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